segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Conversa com Cecilia Pinheiro - Blog 1

Blog 1 – Um cafezinho com a Cecília Pinheiro.

O nosso “Vamos conversar ” de hoje virou uma quadrilogia, de tanta conversa que gerou. Como penso que textos longos, não são a preferência nacional, vamos contar a nossa conversa em quatro blogs seguidos. Cada um sobre um tema diferente. Vamos lá!

Conversamos com a Cecília Pinheiro, uma jovem pedagoga, que tive a sorte de conhecer em Petrópolis, na escola Alto Independência, onde é coordenadora pedagógica.

E, como gosto de fazer, inovei! Pedi a ela um conselho a quem já está no magistério há muito tempo e que caiu naquela rotina aprisionante.

“Vamos lá! Iniciando uma conversa... Um conselho para professores que já estão há algum tempo no magistério e se encontram acorrentados a culturas engessadas.

Primeiramente, o investimento pessoal!  Buscar formações, principalmente naquelas áreas que mais angustiam e tiram a gente da zona de conforto.
Participar de formações que levem esta discussão à tona, favorece um olhar reflexivo, pois partindo de outras vozes e de outros parceiros, juntamente com o embasamento teórico, nos oferece repertório para lidar de forma mais intencional com possíveis problemas. Mas um aspecto importante é estar disposto a investir na formação de forma dialógica com a teoria e com os parceiros de formação, pois muitas vezes nossos paradigmas não nos permitem aprofundamento e ficamos atuando superficialmente no papel de professor pesquisador. ”

Há algum tema que, em sua opinião, daria uma boa sacudida nos "deitados em berço esplêndido"?

“Acredito que o tema que mais mexe com a zona de conforto é qualquer proposta de reconstrução das práticas, sejam elas pedagógicas, de gestão, ou até mesmo de espaço. Hoje, muitas vezes vemos práticas que reproduzem o que nós professores fomos como alunos, porém é necessário reestruturar este fazer e muitas vezes levar esta proposta abala a segurança e mexe muito com o ambiente escolar. Essa reestruturação por exemplo, quando mexe com o que chega em sala de aula, como um currículo, uma proposta curricular, isso deixa as equipes de cabelo em pé, pois quando muda isso, mexe com a rotina e rotina mexe com planejamento e planejamento é algo ainda a ser discutido em formação e ainda é polêmico (rs).

Continua...

Conversa com Cecilia Pinheiro - Blog 2

Blog 2 – Almoçando com Cecília Pinheiro 

“Ah! Não sei se posso ir falando assim, quando vier algo na cabeça, mas uma coisa que lembrei que mexe muito com professores já enraizados nas culturas dominantes da educação é o famoso livro didático!! Este tema gera desestabilização, quando mexido. ” 

Peço que explique mais como se dá e por que se dá a desestabilização? 

 “O livro didático foi ao longo do tempo se estabelecendo como uma "muleta" para os professores. Eu mesma já o utilizei dessa forma. Ele decide sobre o que será dado ao longo de um ano letivo e o trabalho era de apenas dividir o índice em 4 bimestres. Hoje, depois de formações, trocas de experiências, consigo enxergar o livro didático como UM dos recursos de que posso abrir mão em sala de aula, mas não mais o único e predominante! Alguns professores, porém, encontram dificuldades em ampliar esta visão, a respeito dessa ferramenta, pois a mudança desse pensamento precisa vir acompanhada de estudos, pesquisas e formação, pois não basta não utilizar o livro, mas resignificar seu uso."

Acho que durante muito tempo e nem sei se ainda é assim, comento eu, o livro didático funcionava como meta pedagógica anual - usou todo o livro, dever cumprido! E o pior é q essa meta valia para os pais também, como prova de um retorno de investimento. 

Para nós hoje em dia, isso pode parecer absurdo, mas era uma "prova" de serviço prestado. É preciso que o professor atual saiba circular pelos diferentes recursos que tem em mãos, inclusive pelos livros, mas ele não pode deixar as famílias de fora desse seu 
caminhar e deve tê-la ao seu lado na aprendizagem do aluno, concorda? 

 “Claro...concordo! A ideia é exatamente a de perpassar pelos diferentes recursos e não se apoiar em um único. Para mim, o problema de se apoiar só no livro é a distância entre o conteúdo ali apresentado e a realidade dos alunos. É preciso fazer a ligação entre estes aspectos, para não cairmos no jargão: eu finjo que ensino e você finge que aprende. 

Minha última aula, seguindo o livro seria o Pantanal, e me questionei: mas essas crianças tão privadas culturalmente, que pouco conhecem do seu bairro, como apresentarei o Pantanal em uma dúzia de páginas do livro didático? Por outro lado, deixar de apresentar só porque não conhecem é totalmente negligente e irresponsável. 

Parti então, para um levantamento de conhecimento: o que sabiam sobre o Pantanal e fui anotando no quadro. E estas foram as falas dos alunos do meu quarto ano. 



Com as ideias em mãos, analisei o quanto o livro didático me auxiliaria e vi que muitas dúvidas não seriam sanadas só com o que o livro me trazia. Parti para pesquisas de vídeos, por acreditar que visualizando eles poderiam se aproximar do objeto de estudos. Passei para eles documentários, Globo Repórter, clipes de músicas, etc. tudo em cima dos levantamentos iniciais. Era preciso fazer uma avaliação ao final.do bimestre e pedi que escrevessem o que aprenderam e você tem que ver que lindos os textos. Essa prática resignificou o conteúdo do livro, partindo da escuta dos alunos e me senti muito feliz com o resultado! 

Outro exemplo foi com as camadas da Terra. Uma aula gostosa, partindo do livro didático, passando pelo registro no caderno e chegando no bolo...feito especialmente para eles!



 "Desculpe pela empolgação dessa vez!! 1,000 mensagens! ” 

 Eu, particularmente, adorei a empolgação, pois acredito que é isso que nos move. Assisti uma entrevista do Matt Damon, espetacular ator, que calou a entrevistadora que insinuava que os professores não deveriam ter estabilidade, pois essa condição profissional os fazia preguiçosos. Ele acabou com a entrevistadora, perguntando se ela achava que ele trabalhava duro porque ator não tinha estabilidade; ele disse que trabalhava duro, porque ser ator era o que ele queria fazer. Da mesma forma, perguntou ele à moça que o entrevistava, você acha que a estabilidade torna os professores preguiçosos? Uma pessoa que aceita ter um salário péssimo (parece que lá também é assim), que trabalha duro tantas horas, não faz isso, a menos que ame o que faz! Acabou a entrevista e a nossa conversa continua no Blog 3. (https://www.facebook.com/122275871138101/videos/1175838962448448/)

Conversa com Cecilia Pinheiro - Blog 3

Blog 3: Hora do lanche

Para a hora do lanche, uma provocação pedagógica para a Cecília Pinheiro, sobre um escrito da Jaqueline Moss:   - "Reinventar a escola dialogando com a cidade e a comunidade." - a pedagoga diz também que devemos buscar a concepção de escola que interfere no mundo. Não há uma certa oposição entre as duas ideias? Não há o risco de as pessoas entenderem que dialogar seja sinônimo de só adaptar a escola à cidade e à comunidade? Você acha que reinventar a escola deve começar pela sua escuta da comunidade e da cidade? O que a escola levaria para esse diálogo, como proposta para o desenvolvimento das crianças? Livre pensar...

Sobre reinventar a escola e a citação da Jaqueline Mool, esta foi uma questão que me levou a muitas e muitas reflexões, até pelo o que estou vivendo na minha vida profissional. Acredito que o diálogo entre escola e comunidade precisa existir e que é preciso desconstruir a visão de diálogo somente como uma forma de reproduzir dentro da escola o que eles já vivem lá fora. Isso para mim não é dialogar com a comunidade e sim, reproduzi-la, e muitas vezes didatizá-la.

Quando falamos em ouvir a comunidade pensamos logo em algo fora do muro da escola e às vezes esquecemos que lá dentro da escola já atendemos a comunidade, os alunos, os pais, os funcionários que moram na escola. Ouvir estes sujeitos nos dá muita indicação do que pensam e sobre como agem em sua comunidade.
Reinventar a escola para mim, começa com a escuta das pessoas que compõem aquela escola, afinal escola são pessoas e só é possível mudança, quando estas pessoas mudam. 

Quando se abrem escutas no ambiente escolar, muitas situações da comunidade e da cidade surgem e aí entra a intervenção coletiva: o que nós, enquanto escola podemos fazer? E muitas ideias surgem e então não se delimita a escola somente como espaço de aprendizagem; ele se amplia e o dialogo efetivamente acontece...

Reinventar para mim não é somente levar o contexto da comunidade para a sala de aula e sim buscar na escola, formas para agir efetivamente sobre este contexto e isso constrói nos alunos uma identidade cidadã de fato; muitos passam de agentes de observação da realidade para agentes de transformação. Isso é fazer uma educação emancipatória!  É isso que venho buscando, pois, a proposta de educação, como ferramenta emancipatória amplia a ação, gerando reflexos para a comunidade e para a cidade. ”

É um lindo e longo caminho, que se pode fazer com alegria, penso eu.

Voltando um pouquinho sobre o diálogo escola X comunidade. O lixo na comunidade tem nos deixado muito incomodados. Primeiramente, nós do Núcleo do Projeto Independência*, fomos à rua, conversamos com algumas pessoas, pegamos telefones dos responsáveis pela coleta e agora estamos mobilizando os alunos para levar esta conscientização para suas casas. Eles irão escrever cartas para os órgãos responsáveis, questionando a regularidade da coleta e produzir panfletos de conscientização para distribuirmos no bairro.

Nossa rua em frente à escola fica assim

*     Na semana que as professoras do Núcleo foram até as pessoas na rua, e começaram a questionar algumas pessoas responsáveis pela coleta, a retirada do lixo aconteceu como nunca e a rua ficou assim, sem lixo.



Esta situação não é regular, então vamos envolver a comunidade, tanto na conscientização sobre o descarte do lixo, como na cobrança do direito à coleta, mostrando a eles os malefícios desta situação, tornar foco de estudo e de intervenção."


Nota da entrevistada sobre o que é o Núcleo e o Projeto Independência.

"O Núcleo do Projeto Independência foi formado em julho deste ano e foi formado por professores que desejaram fazer parte do projeto Independência O Núcleo hoje é composto de 06 pessoas, que são:  um representante da Secretaria de Educação de Petrópolis, um representante de uma universidade local e a equipe gestora da escola
O Projeto Independência visa a uma reconfiguração da prática escolar, partindo da autonomia, do rompimento da ideia de seriação e do repensar práticas de avaliação."

Conversa com Cecilia Pinheiro - Blog 4

Blog 4: Hora do jantar, com literatura.

Vamos ao seu trajeto pessoal e profissional. Qual é o seu legado à educação e qual o capítulo seguinte?
“O meu legado para a educação, acredito que seja eu ter conseguido disseminar entre as escolas por onde passei o pensamento de que quando algo não vai bem na educação é possível assumir um caminho alternativo; sempre há outra forma de fazer. Costumo dizer que prefiro os incomodados aos acomodados. “

Você e a literatura. Acho que está na hora da literatura entrar na conversa, afinal você é autora de livros infantis. O que dizem os livros? Como tudo começou?
“    "Obaaa!!!
*   Meu contato com o universo literário começou ainda na infância. Sempre gostei de ler, de ouvir histórias e de escrever. Tinha vários cadernos com textos que inventava, poesias. Trouxe esse encanto pela literatura para minha vida profissional enquanto educadora.
*    Sempre vi na literatura uma possibilidade de levar algo a mais para meus alunos e sempre li muito para eles em minhas aulas. Passei a escrever histórias para eles e depois que as usava em sala de aula, deixava engavetadas, guardadinhas. Escrevia histórias também para meus filhos, Ana Clara e Rafael.
*     
Os amigos que liam as histórias sempre me incentivavam a publicá-las e em 2014, apresentei uma das histórias para uma editora aqui de Petrópolis. Alguns dias depois, recebi a notícia de que gostariam de publicar meu livro. Fui tomada de uma felicidade sem tamanho!!! 
Assim, além de leitora, me conectei com o mundo da literatura como escritora."
*      
         


 
*    "Este foi meu primeiro livro."   
*      








"

Em https://ssl.gstatic.com/ui/v1/icons/mail/images/cleardot.gif2015, já em outra editora lancei meu segundo livro na Bienal do Rio. Nos dois livros as ilustrações foram feitas por uma ex-aluna que sempre demonstrou talento para desenhar."

E o que as crianças preferem nos livros? Histórias de fantasia, as que tratam de assuntos atuais, as que abordam temas como medo, morte?

“Vejo que as crianças gostam muito de leituras de diversos temas, mas vejo que os temas dos sentimentos atraem as crianças e também os pais, pois se aproximam desses sentimentos dos pequenos, através da leitura.
No meu segundo livro, que fala sobre medo, já tive algumas devolutivas de alguns pais, dizendo que foi importante ter um livro falando sobre este sentimento. Uma das mães agradeceu muito, dizendo que o livro foi um presente para ela, enquanto mãe. “

Hoje a interatividade chegou aos livros e há muitas experiências que colocam as crianças na coautoria. O que você acha? Pensa em escrever algo nessa linha?

“Penso nisso sim! Hoje em dia nas livrarias existem livros tão atraentes, porém me preocupo com a qualidade literária. Faria um livro assim, com características de interatividade, se a qualidade literária sobressaísse, fosse o foco. A qualidade estética é fundamental, muitas vezes até para a escolha da aquisição do livro por parte dos consumidores, mas venho percebendo as famílias que consomem literatura, mais críticas em relação a isso. “

Acho que estamos fechando com chave de ouro. Quer dizer alguma coisa no fechamento?

“Bom. É sempre bom fechar algo, deixando reflexões e a minha reflexão atual, entre tantas, é como ampliar nossa rede de conhecimentos, seja teórica ou prática, buscando uma educação significativa e emancipatória, onde a voz do aluno dialogue com a do professor, superando assim o já engessado monólogo, que muitos professores vivenciam diariamente. Que os professores achem novos caminhos pedagógicos para darmos conta de fato de uma escola para todos! E que a literatura seja viva na sociedade!!!! "
Assinado: Cecilia Pinheiro

E ficamos por aqui, sabendo que a Cecília tem dois livros publicados e outras tantas histórias guardadas. Aguardemos as próximas publicações.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Conversa com Vitor Nunes Caetano.

VI da Série: criamos um blog para colocar foco nestes professores que merecem admiração. Não são super herois nem super heroínas, nada disso, são professores da rede de ensino do Rio de Janeiro, que insistem em desconsiderar os obstáculos e as limitações e vão seguindo e inovando em sua prática; cada dia como se fosse o primeiro.Vamos conversar?

A nossa conversa de hoje é com o Professor Vitor Nunes Caetano, que você vai ver, circulou com muita desenvoltura em experiências pedagógicas muito legais e se mantém atento às inovações pedagógicas.


E começamos com um conselho bem direto aos novos professores.
- "Profissionalize-se. Especialize-se. Invista em melhorar a sua  formação e aí temos alguns caminhos a seguir: conhecimentos específicos da área de atuação, inclusão, uso de tecnologias e mídias,  educação ambiental e administração de conflitos. Dialogue com outros professores mais experientes.

Vitor formou-se Técnico em Agropecuária pela UFRRJ em 1982, e no ano seguinte trabalhou em um projeto chamado Uma horta em cada escola, que era patrocinado pelo Jornal do Brasil. 

De 1984 a 1988, ainda no JB, foi um dos co-autores do projeto Natureza Viva, promovendo nas escolas, atividades com horta, jardinagem, criação de frangos e coelhos,  plantio de árvores e discussões de temáticas ambientais, de cidadania. Vivíamos a ebulição das discussões ecológicas. Paralelo a isso cursou na Universidade Rural, a Licenciatura em Ciências Agrícolas, onde se formou em 1989. 

Após o término do Natureza Viva, trabalhou em escolas da rede particular com projetos de educação ambiental , nos moldes do trabalho que fazia pelo JB. Em duas escolas, atuou por 10 anos,  o Colégio ITU, em Bento Ribeiro e o Colégio Hélio Alonso, no Méier.

Em 1991, prestou concurso para a SEEDUC e foi trabalhar em um Colégio Agrícola, em Magé. Em 1995, prestou concurso para a SMERJ e a sua primeira escola foi a EM Itália, em Rocha Miranda, que na época estava sendo transformada em Escola Polo de Educação pelo Trabalho. Uma das atividades que desenvolvia era a de Técnicas Agrícolas; era também o tempo da implantação do currículo MULTIEDUCAÇÃO

Pelo município, participou de muitas capacitações ligadas ao trabalho com adolescentes e.uso de tecnologias e mídias. E isso foi decisivo por fazê-lo seguir por outras vias de trabalho. 

Outras formações foram importantes como a Especialização em Ensino de Ciências na UFF, mesmo sem ter concluído a monografia; cursou a Especialização em Informática aplicada à educação pela Souza Marques e a Especialização em Mídias na Educação pela UFRJ. Atualmente, é Mestrando do programa de pós-graduação em ensino de educação básica do Cap-UERJ.

Na SEEDUC, atuou como multiplicador do NTE (núcleo de tecnologia) durante 05 anos e hoje está lotado no CE Professor Ernesto Faria, como articulador pedagógico

Tem áreas de interesse bem específicas: educação ambiental, projetos de integração interdisciplinar,  atividades de cidadania,  tecnologia com crianças e adolescentes, projetos com rádio escolar,  jornal, animação, vídeo,  fotografia, ensino de ciências e, em suas palavras "É o território por onde gosto de navegar"

O que não dá para entender é o porquê desses projetos não estarem mais nas escolas. O do rádio é super importante e pode ser uma  iniciação profissional para muitos jovens. O da horta, agora que vivemos o momento dos alimentos orgânicos idem. O que se pode fazer para reativar, atualizar e por em prática essas ideias? Na opinião do Vitor, "a maior dificuldade em manter acesa a chama desses projetos está na natureza deles, que se contrapõe ao modo tradicional de ensinar, em termos de estratégias, metodologias, propostas diferenciadas de organização do tempo escolar. Esses projetos surgem da reflexão e o modo tradicional de ensinar não tem sido capaz de lidar com o desafio das aprendizagens desse tempo. Tais projetos surgem como resposta a isso e já demonstraram êxito. O problema surge quando se tenta conformar tais iniciativas ao currículo e aí elas se esvaem."


Uma informação bem importante de interesse coletivo: se houver escolas interessadas em desenvolver o projeto de rádio, ele está disposto a dar suporte. Deixamos aqui o convite aberto aos interessados.


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Conversa com Edson Vando de Souza Morais

Vamos conversar hoje com o Professor 
Edson Vando de Souza Morais. 


Nossa conversa terminou ontem, dia 17/09/2015, dia do seu aniversário. Eu havia prometido dar-lhe este blog de presente, mas atrasei um pouco; de qualquer forma, segue com um dia de atraso, a pequena homenagem de reconhecimento a um professor, sempre com um sorriso estampado no rosto. Aliás, vamos começar por aqui mesmo:

- Você é um jovem professor alegre, com uma energia super positiva; seus alunos devem gostar de conviver com uma pessoa assim. Você acredita que o professor ensina aos alunos também um modo de verem a vida e daí é importante ser um bom  modelo de ser humano?

"Complicado responder tal pergunta, pois, acredito que não sou um modelo a ser seguido, mas tento transmitir um pouquinho da transformação que foi efetuada na minha vida com a educação. As portas se abriram devido a educação. Muitos dos meus alunos têm uma perspectiva muito baixa e não conseguem olhar além do horizonte. Por isso, tenho que ser alegre e ter uma super  autoestima para tentar de alguma forma, ajudá-los a galgar degraus cada vez mais altos."

Sigo, pedindo-lhe um conselho aos novos professores. E ele responde "que as sementes plantadas hoje, demorarão um pouco para crescer. E em muitos casos, não será você que colherá os frutos, mas, continue plantando e cuide do seu lindo jardim."

No CIEP Samora Machel
E diz que o que o encantamento da profissão é "quando vejo que um aluno aprendeu algo comigo, ainda que seja uma coisa pouca aos olhos de muitos."

E como nem tudo é encanto na vida, há também os desencantos e sua resposta toma uma dimensão maior.... "Fico muito pensativo quando vejo a desvalorização da educação como um todo. Isso para muitos é como um caminho sem volta. Vidas que poderiam ser mudadas com o conhecimento se perdem por não terem instrução; com isso, também perdem o seu  lugar ao sol."

Vamos sonhar? Pede uma escola de presente; como ela seria?
"Eu gostaria de pedir uma edução de qualidade e igualitária. Queria muito que os meus alunos tivessem a mesma qualidade de edução que os filhos do Bill Gates"

- E quais são os seus planos para o futuro? Avançar mais ainda na área educacional?
"Não quero mudar de área, mas quero ser professor universitário envolvido com pesquisa voltada os invisíveis socialmente, falando.".

- Quem são eles?
"Os que existem, mas ninguém vê na escola..... Crianças com doenças crônicas severas, estudantes transgêneros, etc.... Esses existem, mas são silenciados e colocados para fora da escola pela pedagogia do bota para fora, aqui não é o seu lugar."

- Você fala italiano; conta um pouco do seu aprendizado.
"Falo italiano devido aos meus eternos amigos e padrinhos que sempre me ajudaram financeiramente para estudar. Por isso, tive que estreitar mais as nossas relações para um melhor entrosamento.."

- Qual é a maior dificuldade dos alunos no 4° ano?
"A maior dificuldade que tenho é a não continuidade do meu trabalho pela violência no entorno da comunidade, o que dificulta todos os conteúdos selecionados para o 4° ano."

Ao ouvir a última resposta do Edson, lembro do que disse a Jaqueline Moll, ao apontar que precisamos de uma concepção de escola para intervir no mundo. Chegaremos lá, pois professores talentosos não faltam, como o Edson, por exemplo.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Conversando com Heloiza Pereira Bernabé

Da Série - um pequeno reconhecimento aos nossos professores

Vamos conversar?

A conversa de hoje é com a Professora Heloiza Pereira Bernabé, da Escola Municipal Capistrano de Abreu, no Jardim Botânico. Começamos nossa conversa com o conselho da Heloiza a quem começa na carreira de professor.

"Acredito que mais importante do que o desenvolvimento cognitivo do aluno é o desenvolvimento humano e o respeito às diferenças. É necessário ter o olhar voltado para o perfil da turma, trabalhando com o que de melhor puder ser extraído do grupo. Sempre que possível associar os conteúdos trabalhados com exemplos práticos, contidos no dia a dia do aluno. Isso despertará o interesse deles e fará com que a aula seja prazerosa para os dois lados."

Bom ler isso, certo? Respeitar as diferenças, considerar o saber do aluno como o ponto de partida e articular o prazer e o aprender. 

O resultado do trabalho da Heloiza, à frente da turma do 3o ano, na área de Matemática, colocou a Escola em nono lugar no IDERIO 2014, tendo alcançado a média de 8,8 na disciplina. O resultado final fala muito, mas o que me encanta é o processo de como a turma chegou a esse resultado; como ele foi construído; o que ela tinha como objetivo e o que fez para conseguir que eles aprendessem, gostando de Matemática? 

"O objetivo era conseguir trabalhar os conteúdos de Matemática de forma mais simples e lúdica, fazendo com que os alunos compreendessem o mecanismo da Matemática ao invés de decorarem. 
Resolvi confeccionar  com a turma jogos matemáticos com a utilização de material reciclável que eles próprios traziam. Assim eles estariam participando do processo desde o início. O material criado serviu de apoio para serem utilizados em atividades de operações matemática s, sistema monetário e formas geométricas entre outras. No ano que implantei essas atividades com meus alunos pude trocar ideias e experiências com outras colegas de profissão através dos encontros do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, PNAIC e da capacitação em alfabetização, promovida pelos Parceiros da Educação RJ e realizada pela Professora Cristina Campos.

Todo o processo foi importante.  Consegui que eles trabalhassem juntos, cooperassem uns com os outros, ouvissem, se organizassem em seus grupos, tomassem algumas decisões sozinhos... Usamos tampinhas de refrigerante e palitos de sorvete para a contagem, trabalhamos conteúdos como dobro, triplo, metade usando o jogo trilhas feito com cartolina, garrafas pet como boliche ....Assim que os materiais ficaram prontos, eles puderam explorar e jogar, criando suas regras e também sem regra nenhuma, apenas para motivá- los. Depois, de acordo com o meu planejamento para a aula, eu introduzia esses materiais como forma de obtenção e ajuda para encontrar as respostas das atividades. 

Existem materiais já prontos como esses que fizemos, que encontramos nas lojas. O diferencial é que a partir do momento que eles criam, participam da confecção, trazem os reciclados, eles cuidam desse material. Fazem durar."



 




segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Conversando com Lilian Luzia Mattos de Andrade Fidanza


Terceira da Série: criamos um blog para colocar foco nestes professores que merecem admiração. Não são super herois nem super heroínas, nada disso, são professores da rede de ensino do Rio de Janeiro, que insistem em desconsiderar os obstáculos e as limitações e vão seguindo e inovando em sua prática; cada dia como se fosse o primeiro.Vamos conversar?

Nossa conversa é com a professora Lilian Luzia Mattos de Andrade Fidanza, do CIEP Samora Machel, na Nova Holanda, Complexo da Maré.

As nossas conversas, geralmente começam pedindo aos professores entrevistados, um conselho para quem está começando na profissão e as palavras da Lilian foram bem certeiras:

“Escolha uma profissão que se levantar da cama, valha o esforço. E mesmo tendo percalços, você se sinta capaz de resolvê-los ou ao menos eles não a impeçam de acordar cedo e serena no dia seguinte para mais um dia.”

Acho que era essa certeza que já aparecia no sorriso dela, 
quando se formou e se tornou professora.

Continuando a nossa conversa.

Já diziam que quando uma parte da estrutura se mexe, todo o restante da estrutura se  acomoda ao novo formato, certo? Com a Lilian, aconteceu algo parecido, em sua aproximação com a tecnologia.

“Eu era super leiga na parte tecnológica aos 36 anos e mal sabia fazer um e-mail. Fiz um cursinho de férias na faculdade Estácio. Soube de uma pós-graduação na UNICARIOCA, de Docência do Ensino Superior em Informática Educativa; paguei toda a pós de uma só vez para não ter como desistir.  
Minha filha era bem pequena e eu “perdia" meus sábados nas aulas da pós, mas foi uma maneira de incentivar meu marido a concluir a sua graduação em Educação Física. Ele protelava, pois estava em outra área, mas por outro lado, não parecia nada satisfeito, então, resolvi concluir a minha pós-graduação, para estimulá-lo e funcionou!!! Ele se formou, hoje trabalha em academia e é personal trainer, acorda feliz e tem demonstrado muita satisfação na sua escolha!
Eu concluí a pós com muuuuita, muita ajuda dos colegas da UNICARIOCA! Na época sabia um pouquinho até de robótica, mas hoje em dia, só faço o básico no computador. Tenho até deixado ele meio de lado e uso mais o celular. ”

Enfim, a Lilian segue uma tendência que é termos a tecnologia cada vez mais presente e menos aparente. E o celular é prova disso. É natural usar o celular e ninguém faz curso para aprender a usar – simplificando cada vez mais no cotidiano das pessoas. 

Apesar desse convívio tão frequente com a tecnologia, resta perguntar: E na escola? Como é o uso da tecnologia na sua prática pedagógica?

“Faço avaliações no computador, pesquiso e adapto atividades, imprimo em casa para virarem tarefas de casa aos alunos. Essas atividades são pequenas e lúdicas e de fácil execução e as crianças podem fazer sem auxílio de um adulto; é mais para criar responsabilidade.
Sinto bastante falta de levar os alunos na sala de informática, pois o uso desta tecnologia minimizaria muitas dificuldades apresentadas na sala de aula nesta fase de alfabetização! ” 

Tempo no magistério, desde 1986, no CIEP Samora Machel.


“Um ano e meio na creche Acalanto em Botafogo assim q me formei; tinha passado para o município, mas ainda não tinha sido chamada e depois, no CIEP Samora Machel há 29 anos.

Uma trajetória profissional com muitas imagens

Momentos da sua vida profissional, imagens que contam um pouco de sua atuação como professora – foi o pedido da Professora Lilian, que aos 48 anos, tira fotos dos alunos, registrando os fatos mais marcantes, fotografa funcionários da escola, os passeios e, todo final de ano , entrega um CD com as fotos para cada aluno ter como lembrança  daquele ano! Algumas vezes, mostrou as fotos ainda durante o ano para os alunos ou para os responsáveis nas reuniões de pais e sempre costuma ser um momento de muita descontração! Eis alguns dos registros.




                         
Quadra de esportes parceria CIEP Samora Machel e Parceiros da Educação RJ










sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Conversando com Marise Queiroz Borges

O segundo da série: criamos um blog para pequenos relatos sobre a experiência de professores - um reconhecimento ao valor de profissionais, que estão nas escolas, trabalhando para fazer uma educação de qualidade. Confira!

Hoje, a nossa conversa é com a Professora Marise Queiroz Borges, há 30 anos, exatamente desde 1985, lotada na Escola Municipal Frederico Eyer, na Cidade de Deus.

Trinta anos é muito tempo e vivemos muitas mudanças. A queda do World Trade Center, as guerras na Albânia e no Oriente Médio, as vítimas do terremoto no Haiti e do furacão Katrina são apenas alguns dos eventos.  

Na Educação  também algumas coisas caminharam, apesar de ainda estarmos buscando muitas melhorias: a formação dos docentes passa a ter a exigência de diploma de nível superior. A formação de professores índios avançou. Merenda para quase todas as crianças. A informática chegou às escolas. Mudanças positivas na Educação Infantil. A função do diretor se expandiu à gestão da aprendizagem. As crianças com deficiência chegaram à rede pública. Todavia, a Educação vivia e ainda vive o desafio de melhorar a qualidade do ensino, os caminhos de manter os alunos na escola e a aproximação e o envolvimento da família nas atividades escolares dos estudantes. 

Os 30 anos da Professora Marise na EM Frederico Eyer falam dessas mudanças. 

"Quando cheguei em 1985, a escola atendia muitas crianças de orfanato,  muitas mesmo.  Eram crianças bastante carentes,  carentes de tudo.  A maioria não tinha família,  em compensação,  como professora, me sentia mais valorizada e respeitada. Atualmente,  algumas famílias dão pouca importância à escola.  Claro que não são todas,  mas um número  significativo.
Muita coisa mudou desde que cheguei aqui.  Antigamente,  tínhamos pouco material e poucos recursos,  em contrapartida,  os alunos eram mais frequentes.  O desempenho da escola era razoável e foi melhorando ao longo do tempo, porém, apesar de muitas tentativas de solução,   ainda temos muitos alunos faltosos. 
Quanto a mim, enquanto profissional, tento me adaptar às mudanças que ocorrem na Educação,   concordando ou não com essas mudanças.  Tento realizar meu trabalho da forma mais responsável possível,  procurando meios para conseguir ajudar efetivamente no desenvolvimento dos meus alunos."

Os efeitos sobre a prática pedagógica.

"Ao longo de todos esses anos, sinto que o respeito e os limites estão diminuindo gradativamente, o que torna, pra mim, mais difícil e cansativo o dia a dia na sala de aula. 
Acredito que o professor tem um papel fundamental na formação do aluno em vários aspectos,  o que torna essa profissão muito importante e especial. 
Na minha opinião,  o ideal seria uma escola bem equipada,  com autonomia,  pessoal e materiais suficientes, turmas com menor quantidade de alunos,  professores e funcionários bem remunerados,  alunos interessados e família presente. Claro que dificuldades sempre existiram e existirão,  mas, penso que continuaremos conseguindo superar e seguir em frente."

O prazer de ensinar, acima de tudo.

"Tento ajudar meus alunos, mostrando diferentes caminhos para chegar a uma resposta,  para que,  cada um,  tenha opção de escolher o que tiver maior facilidade. Gosto muito também  de trabalhar com exercícios e jogos de lógica,  desafiando a turma a pensar em soluções e criar estratégias, buscando respostas,  às vezes individualmente,  em dupla ou em grupo. Os alunos gostam e tem sido bem positivo. 

Umas palavras para quem inicia na profissão

"Não sou muito boa para dar conselhos,  mas para quem está começando agora eu diria o que digo a mim mesma: determinação para alcançar os objetivos e persistência para não desistir diante dos obstáculos que surgirem."



sexta-feira, 10 de julho de 2015

Conversando com Fatima Bispo

Há certos professores que encantam pela disposição que têm em fazer as coisas certas e melhores para os alunos, sem pestanejar.

Resolvemos reservar este espaço, para colocar foco nesses professores que merecem admiração. Não são super herois nem super heroínas, nada disso, são professores da rede de ensino do Rio de Janeiro, que insistem em desconsiderar os obstáculos e as limitações e vão seguindo e inovando em sua prática; cada dia como se fosse o primeiro.

Vamos conversar?

Nossa conversa hoje é com a Fátima Bispo, professora de Educação Física da Escola Municipal Frederico Eyer, entre outras.

O conselho para quem começa na profissão:

"Vincular seu nome a alguma área específica - ter foco numa área. Enfim, vincular o seu nome, como referência numa área ou atividade, sem, no entanto, se fechar para outras possibilidades.  Ser flexível e atento.  Procurar se diferenciar complementando a formação com cursos significativos dentro da área escolhida.  E acima de tudo,  ter um plano de vida, especialmente um plano de carreira.  Saber onde se quer chegar e como, é fundamental.  Pensar e planejar a aposentadoria.  Essa é a hora!"

Sobre a visão da Educação Física na formação dos indivíduos. Educação Física é recreação?

Apesar de considerar que brincadeira é coisa séria; que é super importante na formação e desenvolvimento, Fatima se incomoda com aqueles que confundem EF com recreação e até profissionais da área também confundem."A intencionalidade pedagógica é tudo!  Nossa área é muito fértil desde que o professor tenha exata noção do que quer desenvolver.  Podemos desenvolver e potencializar habilidades físicas, psíquicas e sociais.  Tem que saber o que quer."

Lá pelas tantas, surgiu o xadrez na vida da professora de Educação Física.

Um dia lá atrás, dois alunos da 7ª série (na época) da EM Pedro Aleixo, ensinaram xadrez à professora, para que ela os levasse a um torneio.  Chegando lá, ela ficou surpresa com a quantidade de crianças do município, que participavam do torneio.  Resolveu estudar para que ficassem melhor preparados no próximo ano.

No caminhar, percebeu que crianças que não aprendiam a ler e escrever aprendiam um jogo complexo como o xadrez.  Alguns melhoravam essas aquisições depois de aprenderam xadrez.  Por conta disso, nunca mais parou de aprofundar os seus conhecimentos.

O muito legal é saber que ela se preocupou em acompanhar o desempenho dos alunos do projeto nas demais áreas do conhecimento e, até o final do ano passado confrontava os gráficos de desempenho das turmas com a respectiva produção no xadrez; percebeu que a relação não é tão direta.

Então, você pensa: ela desistiu? Nada disso.

Para esse ano está montando um estudo para aferir os ganhos nas funções executivas e, dessa forma, poder confrontar o desempenho de cada aluno individualmente.  Ou, pelo menos, apontar onde esse aluno está melhorando de forma a dar "pistas" para a professora do núcleo comum.